O ministro do STF, Flávio Dino, questionou na semana passada como ninguém viu as irregularidades do Banco Master. “O elefante é grande, está pintado de azul, desfilando na frente de todo mundo”, disse. Especialistas divergem sobre as causas dessa cegueira, mas concordam que Vorcaro e seus companheiros usaram a favor do Master os sistemas regulatório, político e jurídico que incentivam a omissão.
As estimativas apontam prejuízos de R$ 60 bilhões com a fraude, superando as principais crises bancárias dos últimos 20 anos e as perdas da Lava Jato, que ficaram entre R$ 29 bilhões e R$ 42 bilhões. O advogado José Andrés Lopes da Costa, especialista em regulação bancária, afirma que a dinâmica da omissão contaminou as estruturas de regulação e fiscalização.
Segundo Costa, há duas leituras para o caso. A primeira é a do escândalo, com falhas individuais e conluio. A segunda é mais técnica: os sistemas não oferecem incentivos à reação, fazendo com que cada agente pondere que tem mais a perder vendo do que não vendo. Exemplos dessa dinâmica incluem o afastamento de três gestores da Caixa Asset que relataram riscos na compra de letras financeiras do Master, e a renúncia do então presidente da CVM, João Pedro Nascimento, após votar contra empresas ligadas ao banco.
O economista Marcos Lisboa aponta o risco de sanções para quem atua preventivamente. Servidores que tentam evitar fraudes podem ser acionados na Justiça ou questionados pelo TCU. O próprio TCU questionou o Banco Central sobre a liquidação do Master, apurando possível “precipitação”. Nos Estados Unidos, o ambiente é oposto, com a figura do “whistleblower” que pode receber prêmios em dinheiro por denúncias.
Lisboa também critica o tratamento difuso da responsabilidade solidária no mercado financeiro. Segundo ele, as corretoras são responsáveis pelos produtos que oferecem e deveriam alertar os investidores. As demonstrações financeiras do Master já mostravam riscos, como a concentração de ativos em precatórios e a dependência de recursos de partes relacionadas.
O economista Roberto Teixeira da Costa afirma que a fragilidade do Master era identificável de forma intuitiva. “Se um CDB paga muito acima do mercado, por si só, já é um alerta”, diz. Ele defende a recalibragem do FGC, que ajudou a sustentar a estratégia de captação agressiva do banco. O advogado Guilherme France, da Transparência Internacional, destaca a presença de altas autoridades na rede de influência de Vorcaro, que intimida e evita responsabilizações.
